sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Euforia Refinada


Inquieta e dona de um humor quase poético, Alessandra Maestrini tem os pés no chão, mas a sua arte não conhece paredes, tão pouco a trivialidade. Da dramaturgia à música, ela se movimenta com a leveza de uma bailarina e não dá para saber onde termina a cantora e começa a atriz, ou onde termina a menina do interior e começa a diva. Por VANESSA OLIVIER


Entro, às 11 da manhã, em seu quarto de hotel, e a encontro fazendo as malas para dar continuidade a sua turnê Drama'n Jazz pelo interior do Estado. Na noite anterior, tinha se apresentado, pela primeira vez, em Sorocaba, sua cidade Natal. A estreia a encheu de orgulho e alegria por poder compartilhar seus  talentos artísticos aos conterrâneos. ”A sensação é igual a de quem vai fazer formatura de universidade. Eu sinto como se fosse um prêmio poder, finalmente, me apresentar aqui. Foi muito especial", diz, com os olhos azuis cintilantes.

 Alessandra me recebe vestida de maneira informal, cabelos soltos naturalmente e sem um pingo de maquiagem no rosto. Não lembra, nem de longe, a diva da noite anterior. No palco — seu universo particular - estava em um sensual e chiquérrimo macacão, que reluzia um brilho negro devido aos infinitos cristais swaroski, cabelos presos no alto da cabeça e maquiagem impecável.

Mas apesar da simplicidade de seu visual, de quem acabou de acordar e está ajeitando, despreocupadamente, as gavetas de lingerie, no caso dela, a bagagem (sim, enquanto conversamos, Alessandra se ocupa em fazer as malas), é possível perceber a musa (e a humorista) nas palavras cuidadosamente escolhidas e articuladas, no riso fácil, solto e na força do olhar longÍguo ao buscar as mais doces lembranças, como as do avô italiano Mário, chamado carinhosamente por ela, na infância, por ”vô caecudo” (ele era careca, avisa), que retribuía o apelido a chamando de "estrupício".

 Ela conta que ganhou a alcunha durante uma visita da família ao avô, que mora na Itália. ”Todo lugar que a gente ia, como eu era a mais nova, devia ter uns 4 ou 5 anos, me deixavam escolher o que íamos comer. E eu sempre respondia: pizza. E meu avô falava: 'esse estrupício só quer pizza', aí pegou", Alessandra termina a história rindo até fazer o corpo se curvar. E depois se entristece ao se recordar de sua atual dieta: ”Agora sou uma pessoa que não come mais glúten, não posso nem comer pizza”, lamenta. ”Ah, sério? Deve ser por isso que consegue manter a boa forma”, digo. Ela ri e diz, tristonha, que fez um teste de intolerância alimentar e, segundo o resultado, tudo lhe dá alergia. "Praticamente tenho que viver de fotossíntese. Mas vou fazer outros testes pra confirmar”.

 Além da dieta restritiva, o corpo esguio de Alessandra é mantido por suas longas caminhadas, em companhia de bons amigos, já que ela não é do tipo que rala em academia, ou corre horrores para manter a barriga sequinha. "Adoro caminhar, e sempre tem um amigo desavisado que me convida para caminhar na orla, e depois que andamos bastante, ele diz: 'quando a gente vai parar de andar? Estou cansado", ela solta uma gargalhada enquanto dobra uma peça de roupa. "E quando eu pego o telefone então, quanto mais eu falo mais rápido eu ando".

 Pensando bem, gostar de caminhar faz muito sentido para ela. Estar constantemente em movimento, e para diversas direções, é uma das mais fortes características profissionais de Alessandra. Atriz, cantora, compositora e versionista, transita por diferentes faces dentro da música e da dramaturgia. Nos palcos, na telinha e na telona, vai do riso ao choro, do lírico ao jazz, do MPB ao rock. No campo da voz, a mágica brota principalmente por ela ter quatro oitavas de extensão, um fenômeno raro no canto que a permite interpretar perfeitamente estilos tão distintos.

 Mas além do seu talento natural, Alessandra convive com uma espécie de faniquito a estabilidade, algo que vira e meche a leva sob uma infinita esteira mutável, que a apavora e também a torna mais forte e mais feliz. ”Tenho medo e coragem junto, pois sem o medo a coragem não existe. Se você não tem medo, também não tem coragem. Ao mesmo tempo, não consigo ficar sem mudar, vai me dando uma agonia muito maior do que o medo de mudar. É aquela velha história de que, às vezes, não fazer é mais difícil do que fazer”. No caso dela, impossível. E se for levar para um nível astrológico, totalmente incoerente. ”É engraçado que sou taurina, e dizem que o touro é um signo muito fixo, só que eu tenho fogo no meu mapa astral. Sempre que vou fazer o mapa, o astrólogo fala: 'você é uma taurina muito atípica, você não para quieta'”, ela ri, balançando a cabeça, achando graça da própria inquietude.

 "Tenho medo e coragem junto, pois sem o medo a coragem não existe"

 

NUA EM CENA

 Desde 1997, Alessandra mantém uma relação muito íntima com os palcos, derramando, ali, aos olhos e ouvidos vigilantes da plateia, toda a sua genuína arte de interpretar. A primeira vez que se revelou ao público foi com o espetáculo As Malvadas, de Charles Mõeller e Cláudio Botelho, que recebeu o Prêmio Sharp de Melhor Musical. No currículo, guarda musicais como a superprodução Les Miserables (Os Miseráveis), Rent e o megasucesso Ópera do Malandro, ambos protagonizados por ela.

 Para Alessandra, 0 show Drama'n Jazz tem uma esfera mágica, totalmente especial, que a faz entrar em contato com suas mais densas emoções. De um modo clichê, é como ver nascer e crescer o primeiro filho. "E o meu primeiro CD, meu primeiro show solo como cantora, meu primeiro projeto pessoal, assinando produção também, em parceria com o Jorge Elali Produções. Então é muito especial", ela fala sorrindo com os olhos.

 No entanto, apesar de estar familiarizada com aquele friozinho que congela sua barriga toda vez que entra em cena, o que agora cutuca os temores dissimulados de Alessandra é outro. Estar no palco, desnudada de personagens, fazendo ecoar sua voz com suas próprias expressões e maneira de sentir a arte é o ponto central desse desafio. "É diferente, agora não tem desculpa. Não posso mais dizer que chorei naquela hora porque era o personagem, porque fazia parte do show. E uma explosão, é como estar nua, pois são os teus sentimentos ali, o teu jeito de sentir aquilo, tua delicadeza, tua fragilidade, tua força, tua feminilidade, tua virilidade".

 Mas ela sabe que por trás de tanta exposição sempre vem os louros do aprendizado. O principal deles é aquele mais transcendental: o encontro com nós mesmos. "É aprender de si mesma, porque é um contato direto com o público, não tem quarta parede, é mais corajoso, digamos assim. Pelo menos para mim, alguém que sai de um lugar para o outro. Transição é sempre uma novidade", reflete.

 

DESAFIO "CHICO”

 Certo dia, Alessandra estava ouvindo um CD de Marília Gabriela, ao lado de alguns amigos estrangeiros de sua mãe. Assim como ela, eles se encontravam totalmente embasbacados pela beleza da música brasileira. Foi ai que uma ideia iluminadora atravessou a mente inquieta de Alessandra. "Naquela hora eu pensei que era uma pena eles não estarem entendendo a poesia, porque uma das partes mais importantes da nossa música é a poesia. Aí eu decidi tentar fazer com que eles entendessem".

 Ela conhecia muito bem a complexidade do desafio que vinha pela frente, pois se traduzisse literalmente a canção, a estragaria, ou se criasse uma nova letra não estaria contando a verdadeira história. E isso era o que a estimulava, a simples ideia de que poderia encontrar a resposta para uma pergunta laboriosa. "Fiz, ficou legal, e aí fiz outra. Quando vi, já tinha feito o CD inteiro”. Mas ela queria mais. O "mais” se tornou infinitamente maior quando pensou no quão instigante seria encontrar as palavras perfeitas para as obras de um dos maiores ícones da cultura nacional, Chico Buarque. "Consegui fazer a Beatriz, assim, fácil. Ai eu falei: 'gente, eu sei fazer isso'”, comemora.

 Empolgada, Alessandra verteu para o inglês outras composições de Chico, como a Eu Te Amo, que integra as faixas de seu CD. Depois de prontas, ela enviou as letras ao compositor por email. E aí veio a maior de todas as gratificações: pela primeira vez, ele deu sua bênção a uma versão de sua música. "Ele aprovou todas. Me ligou, fez um monte de elogios, falou que todos os dias recebe email de gente querendo verter sua música e ele nunca aprova. Disse que estava muito feliz, porque fui bastante fiel à sua poesia, a sua essência”, ela vibra com a lembrança, emocionada.

 "Só o humor salva"

 O contraponto de seu talento é o que a torna ainda mais especial: se por um lado, emociona muita gente com o alcance arrepiante de seu vocal, por outro, também arranca gargalhadas por seu humor refinado. Como esquecer a hilária Bozena, do sitcom Toma lá dá cá? Neste ano, ela também viveu uma noiva

muito sinistra, que decidiu se casar com um noivo morto, em sua participação especial no seriado Pé na Cova. Ainda neste ano, também deve estrear a comédia A primeira missa, dirigida por Oscar Magrini. ”O filme é muito engraçado, nas gravações a gente morria de rir. É sobre a dificuldade de fazer filme no Brasil. Se eu sou uma índia, por aí já dá pra imaginar".

 Mas é certo que o bom humor de Alessandra ultrapassa as câmeras e não perde uma oportunidade de dar o ar de sua graça para deixar o dia dela mais leve, principalmente nos momentos mais críticos. "Uma vez, eu estava triste, chorando e, de repente, comecei a rir. Meus amigos me perguntaram do que eu estava rindo e eu disse: 'eu não consigo parar de chorar, estou achando isso hilário'”, ela mal consegue terminar a frase e o riso vem apressado e, ao mesmo tempo, deliciosamente sem pressa. ”Eu costumo dizer que só o humor salva. Então, há o que eu chamo de alegria de viver, algo que faz parte da minha essência, graças a Deus”, diz, levantando as mãos para o céu.

 

'eu não consigo parar de chorar, estou achando isso hilário'
 

Além de ser essencial em situações críticas, para ela, o senso de humor também é uma espécie de feromônio, ou seja, um tempero crucial no jogo da conquista. "O cara não precisar ser hilário, mas ele tem que entender suas piadas, você não precisa ser hilária, mas você precisa acompanhar o humor dele porque achar graça das mesmas coisas é importante. Mesmo que você não veja graça, que, pelo menos, se divirta

do fato de ele achar aquilo engraçado”. E, pelo jeito, ela vem se divertindo bastante ultimamente. Quando pergunto como está seu coração, ela diz: "Eu estou feliz, mas não vou falar mais do que isso", e ri um riso de orelha a orelha, revelando muito mais do que gostaria.

 


segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Será?










Uma mão fecha-se em punho, 

Um rosto se contorce,

O soco é magistral e derruba,

Não só alguns dentes, mas a estrutura,

O corpo estremece, os olhos lacrimejam espanto,

Ou será ódio, dor?

Mas a mão que dá o soco não sai imune,

Arde, vibra, queima,

Estremece também, a adrenalina corre nos poros,

Nas veias, nas extremidades,

O coração vibra, descarga elétrica atirando arritmias.

No entanto, toda ação requer uma reação,

A reposta leva segundos pra vir,

E ela vem cheia de si, de verdade, de loucura,

Outra mão se fecha em punho,

Outro rosto se contorce,

Outro coração explode,

Mas nada disso precisa ser literal. Saca?

É assim na vida, na luta contra nós mesmos,

Uma briga que não existe sangue, nem dentes estilhaçados,

Ainda que haja dor, lágrimas, ódio, estrutura abalada,

A vitória pode ser genuína, coração vibrando e espalhando luz,

Ou a perda, amarga, sinapses num escuro aterrador.

Essa batalha só exige uma reação: Resistência.

Será que você tem?

 

Vanessa Olivier

 

 

Tecla Errada

 


Ando meio arredia como uma nota dissonante na partitura,

Aquele agudo que não agrada, ecoando na mente,

É como errar de propósito a tecla certa do piano,

Mas sem chance de poder voltar atrás,

De tirar o ruído travesso do ouvido,

E me vejo presa ao zumbindo de meus próprios lapsos.

É assim quando deito, mesmo que placidamente, a cabeça no travesseiro

A fronha enrugando-se embaixo de meu rosto, mesmo que não me deixe marcas,

A pressão crescendo a cada farfalhar, mesmo que eu medite

Mesmo que eu cante,

Mesmo que eu ore,

Mesmo que eu chore,

Impossível mudar ou anular aquela tecla,

Impossível calar um coração que não aprendeu a gritar.


Vanessa Olivier

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Mudar Faz Parte



Quando alguma coisa sai do eixo, não tenha medo de buscar outra peça para o quebra-cabeça da sua vida. Os elementos podem mudar de posição ou perder a conexão com o  todo, e é você quem precisa fazer as alterações necessárias para que tudo volte a se encaixar. Por Vanessa Olivier


O que a palavra mudança provoca em você? Medo, euforia, esperança, alegria, tristeza ou será indiferença? Nunca, por exemplo, nos últimos tempos, o Brasil ouviu e repetiu tanto esse termo. Uma nação cansada de corrupção e falsas promessas, que clama por mudanças (boas, é claro), mas que ainda tem medo delas. Apostar no conhecido é sempre mais fácil do que no duvidoso, e acabamos sendo enreda- dos pelo conforto de nossa própria armadilha – nosso imaculado e quentinho universo particular.

Mas e quando aquele conhecido mundo já não nos faz felizes como antes? Será o momento de romper a casca que nos protege de nossos possíveis fracassos para nos permitir errar, tentando acertar? Só de pensar em mudar algo estável bate um certo desconforto. Esse sentimento é compartilhado por inúmeras pessoas e, provavelmente, por você também. Pense bem, em algum momento da sua vida você já sentiu algo assim: coração disparado, boca seca, corpo agitado e uma imensa vontade de sumir. Esses sintomas, apontados pela psicóloga e palestrante Meiry Kamia, de São Paulo, são reações corporais que ocorrem no presente movido por um sentimento do futuro – a ansiedade.

Segunda ela, é natural não gostar de mudanças, pois além de provocar sensações físicas desagradáveis, nos obrigada a aprender coisas novas, o que não nos agrada muito porque somos seres extremamente movidos a hábitos. “A rotina nos traz uma falsa sensação de segurança, a crença é: se executar as tarefas todos os dias da mesma forma, isso trará a sensação de que o resto está bem, chegaremos em casa seguros e garantimos mais um dia de vida”, explica Meiry, que também faz um alerta: “É uma crença falsa que nos aprisiona e não permite que possamos aprender e crescer”.


É esse o ponto: o nosso crescimento emocional e cognitivo depende de novas experiências. Assim, toda transformação exige o abandono daquilo que não nos serve mais, seja o que for. “A mudança derivada de um evento externo a nossa vontade é encarada como fato da vida, uma contingência do destino frente a qual nada podemos fazer. Há certa resignação com as mudanças provocadas por eventos alheios a nossa vontade”, pondera a psicóloga Angelita Scardua.


Segundo ela, essa percepção nos faz enxergar de maneiras diferentes as mudanças da vida que ocorrem alheias à nossa vontade daquelas que planejamos. “Essas últimas geram medo porque sabemos que estão em nossas mãos, desde    o princípio até a conclusão”. Sim porque quando escolhemos mudar, a responsabilidade de um possível fracasso é toda nossa, ao passo que as mudanças não planejadas nos colocam no papel de vítimas ou de sortudas. “Assim, tanto uma quanto outra pode ser percebida como sendo mais confortável emocionalmente do que a posição de responsável”, aposta.


No entanto, se alguma coisa em sua vida não está legal, sempre é tempo de mudar, como aponta uma das frases icônicas de Charles Chaplin: “Cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre”. E o momento para essa reflexão não poderia ser melhor, já que, naturalmente, o fim de todo ano sempre vem acompanhado de um sentimento de renovação, pois o vemos como o encerramento de um ciclo. 

“Quando um ano termina, nos sentimos inclinados a fazer a ‘contabilidade’ do tempo vivido e, nessa hora, refletimos se investimos da melhor forma nossa energia, nossas horas, nosso dinheiro, nosso afeto. Ao mesmo tempo nos motiva   a pensar em como podemos contribuir mais e melhor para   a história que estamos escrevendo, ou seja, a vida que estamos levando. E muitos momentos, fazer mais e melhor exige mudanças, términos e recomeços”, diz Angelita.


HORA DE MUDAR


Ok, vamos admitir que você se sente incomodada com alguma coisa, mas não sabe bem o que fazer para reverter a situação, nem se é hora para tentar uma mudança e, muito menos, se realmente mudar é a chave para sua felicidade. Para o especialista em administração de tempo e produtividade Christian Barbosa, de São Paulo, essas dúvidas podem roubar um tempo precioso de nossa vida. E para que isso não aconteça com você, ele tem uma sugestão: “Sempre que tenho um impasse ou algo que está emperrado, eu paro para me perguntar, e não para pensar. Perguntas são as respostas”.

Mais precisamente, garante ele, seis delas podem ajudá-la a responder suas principais dúvidas: 

1 E se eu mudar e optar por esse novo rumo? O que pode acontecer de bom? O que pode acontecer de ruim? Tem mais vantagens ou desvantagens? 2 Alguém será prejudicado com essa minha decisão? É possível evitar ou minimizar o impacto? 3 O que me impede de tomar essa decisão? O que preciso fazer para vencer essas barreiras? 4 É ético? Honesto? Vou conseguir dormir à noite? 5 Minha família vai junto comigo? 6 Vai ajudar a realizar meus sonhos e objetivos?

Você pode até se fazer todas essas perguntas, mas saber reconhecer a hora certa da mudança não deve ser algo tão difícil assim, acredita a psicóloga Angelita Scardua. Segundo ela, nós já sabemos quando uma situação em nossa vida não nos serve mais. “Podemos até não querer admitir, mas sentimos quando algo ou alguém não acrescenta mais, não contribui mais, não importa mais”.

Angelita aponta que as emoções negativas, de todo o  tipo, são os primeiros sinais da necessidade de um recomeço. “Sentir raiva, medo, tristeza, insegurança etc, é uma maneira da mente alertar para a insatisfação”, garante. Além dos sinais de ansiedade citados no início desta reportagem, o corpo também encontra um meio de transbordar o descontentamento através de sintomas, como cansaço constante, mal-estar físico, falta de energia contínua, tensões acumuladas na musculatura, apetite excessivo ou falta dele, enxaquecas, insônia, e por aí vai.

“O mal-estar físico e emocional são sinais de que a vida pede novas direções que nos levem a diferentes caminhos dos quais temos percorrido. Eles incluem o desinteresse por algo que antes nos encantava, a indiferença frente a alguém que costumava despertar fortes emoções, a falta de motivação para fazer uma coisa que antes fazíamos entusiasmada- mente”, completa Angelita.

Ainda que você esteja enfrentando alguns desses sinto- mas, mas não tenha se convencido totalmente de que precisa agir, Christian Barbosa elaborou nove estágios que apontam quando alguém está apenas sobrevivendo, ou seja, que está vivendo uma vida que não quer. Talvez você possa se identificar com algum deles, ou com todos.


1.  SEGUNDA-FEIRA É UM MARTÍRIO quem acorda na segunda-feira imaginando que está indo para um velório, sem qualquer disposição de fazer acontecer, tem um dos sintomas clássicos da sobrevivência.


2.  RECLAMA SEM SABER O PORQUÊ tudo está chato? Tudo é um saco? Sem vontade de fazer muita coisa? Você “bufa” várias vezes por hora com aquelas coisas que aparecem no meio do seu dia? Se você está reclamando de tudo, a toda hora, para todo mundo, você está no caminho de se tornar uma walking dead (zumbi da vida).


3.  O DIA NÃO ACABA COM AQUELA VONTADE DE QUERO MAIS: sabe quando seu dia termina, você está tão cansada, esgotada e ainda tem um monte de trabalho paraser feito? Será que você sente aquele “tesão” de fazer um pouco mais, de tanto que gosta do que está fazendo ou não vê a hora de sair pela porta? (Eu não estou dizendo que é para fazer cansada, trabalhar mais, estou só perguntando se você tem vontade de fazer isso)


4. FAZ MAIS COISAS PESSOAIS NO TRABALHO QUE PROFISSIONAIS: você chega no trabalho, começa a tocar o dia, daqui a pouco vem uma preguiça e você passa a procurar coisas sobre seu TCC, faz um pouco do seu trabalho extra, procura algo da sua próxima viagem etc. Fazer coisas pessoais durante o trabalho não tem problema, se forem no tempo certo e no tamanho do bom senso. Agora, quando toda hora você foge para o pessoal, certamente, tem algo errado. 


5.      VE PROCURANDO OUTRAS OPORTUNIDADES DE EMPREGO: VOCÊ SEMPRE ACESSA SITES DE EMPREGO PARA MANDAR SEU CURRÍCULO E BUSCAR OUTRAS OPORTUNIDADES? Esse é outro sintoma de que algo está errado com a oportunidade atual. Querer melhorar é natural do ser humano, mas será que você tem um foco específico para isso ou está aleatoriamente buscando algo diferente.


6.  SEM TEMPO PESSOAL DE QUALIDADE: há quanto tempo você não faz algo, realmente, de qualidade para você mesma? Seu tempo pessoal é prioridade ou é raridade? Pessoas que sobrevivem não conseguem encaixar muito prazer na agenda, são apenas levadas pelo grupo   em eventos sociais, mas algo que goste de verdade fica em segundo plano.


7.  SENSAÇÃO DE QUE ESTÁ FALTANDO ALGO: pessoas que estão sobrevivendo, vivem com a sensação de que precisam fazer algo diferente, mudar a vida, dar a guinada, fazer sucesso de verdade. É um pensamento que vai e volta constantemente, mas sem muitas respostas práticas.


8.  AUSÊNCIA DE DESAFIOS: quem não tem um grande desafio na sua vida, algo que realmente motive de verdade, acaba entrando nesse ciclo de sobrevivência. Esse objetivo pode ser algo profissional como um novo projeto, uma meta desafiadora, ou algo pessoal como um curso, uma certificação, um empreendimento etc.


9.  FOCO NO PRESENTE, FUTURO INCERTO: muitas pessoas só conseguem enxergar o hoje e nem querem imaginar o que será amanhã. Vivem o presente até ele se esgotar, sem criar um futuro que permita uma vida plena. A rotina está tão no automático que essa construção do amanhã não é muito levada em consideração.



A HORA É AGORA


Se você já tem certeza de que precisa mudar, o próximo passo é agir. “Para o bem e para o mal, é somente promovendo mudanças, de forma deliberada e consciente, que aprendemos que somos capazes de influenciar os rumos da própria vida”, aponta a psicóloga Angelita Scardua. A partir do momento em que realizamos a primeira mudança de uma situação incômoda, automaticamente, nos sentimos mais fortes, descobrimos as nossas reais capacidades e, principalmente, entendemos (de uma vez por todas) que, se não houver uma ação, também não haverá uma reação, além do fato de que “os céus não caem sobre nossas cabeças só por- que mudamos de direção”, acrescenta Angelita.


Ao aprender a conduzir os caminhos da nossa vida só temos a ganhar, já que somos desafiadas a nos readaptarmos, a modificar hábitos, crenças e valores. “Podemos encontrar diferentes e novas maneiras de vermos o mundo e a nós mesmas”, aposta a psicóloga, que também faz uma ligação entre esses ganhos e o desapego. “Quando desapegamos, criamos espaço em nossa mente e em nossa vida para coisas novas. Mesmo que não falemos sobre isso, no fundo, sabemos que viver melhor exige que tenhamos a disposição para mudar algumas coisas, seja hábitos alimentares ou a maneira com que tratamos nosso companheiro, por exemplo”.


Então, se você quer mudar sua vida em 2015 (seja uma parte ou tudo) precisa aprender a ser uma pessoa um pouco diferente da que foi em 2014. “Essa deve ser a única e real resolução de fim de ano: mudar! Afinal, a palavra ‘resolução’ tem vários significados, como firmeza, energia em face do perigo, coragem, decisão, ato ou efeito de resolver--se, fluxo etc”.


Está pronta? Então atente-se às dicas da profissional e tenha um novo ano diferente e muito mais feliz:


Exercite a     curiosidade


Procure fazer e experimentar coisas novas. Alterne o caminho do trabalho, comece uma atividade física que nunca fez antes, exercite o paladar e o olfato com aromas e comidas que são estranhas para você. Viaje para lugares que não conhece, vá a recantos de sua cidade que não costuma ir. Converse com pessoas diferentes de você, que tenham outra religião, idade, origem cultural e econômica. Abra sua mente para o desconhecido. Isso nos ajuda a repensar o mundo e a nós mesmas, nos fornece novas perspectivas sobre a vida e nos coloca em contato com outras formas de viver.


Desapegue


Faça uma faxina na casa, no local de trabalho e na mente. Se alguma coisa não é mais útil ou gera muito mais emo- ções negativas do que positivas – seja um objeto, crença ou convicção, lembrança, atividade ou até mesmo uma relação amorosa –, deixe para trás. Insistir em manter algo que apenas faz volume ou é um peso na vida, nos imobiliza emocionalmente, gerando culpa e frustração. Enquanto mantemos algo que não contribui para a vida que queremos viver, estamos ocupando o espaço que poderia ser dado a algo que poderia nos ajudar a nos aproximarmos da vida que almejamos.


Planeje


Seja qual for o seu plano para 2015, trace metas. Desmembre o objetivo final em várias etapas – com prazos e métodos viáveis – a serem cumpridas progressivamente para atingi-lo. Avalie suas expectativas e os recursos que você já tem e os que precisa ter para alcançar suas metas. Não adianta planejar o que não se pode alcançar, seja por características pessoais ou pelas condições ambientais. Por exemplo, se você quer emagrecer 12 quilos, não adianta estabelecer a meta de chegar ao peso ideal em um mês. É importante entender que o emagrecimento, para ser saudável e efetivo, deve ser encarado como resultado de uma mudança de hábitos, desde alimenta- res até de rotina de atividades.


Busque o equilíbrio


Não encare o ano vindouro como a única chance para atingir esta ou aquela meta, e sim como a oportunidade para começar pequenas mudanças que, juntas, resultarão em uma transformação mais profunda. Isso significa não canalizar todos os esforços em uma única direção. Nenhuma meta deve ser a sua vida. Uma boa vida deve ser diversa, ter espaço para a família, o trabalho, o lazer, a vida afetiva, o autocuidado, a espiritualidade, os amigos. Se para realizar um objetivo tiver de negligenciar várias outras áreas da vida, dificilmente essa conquista, por maior que seja, compensará o que se deixou de viver. Lembre-se, neste ou no ano que se iniciará, a única vida que você tem de verdade é esta que está vivendo. Tente vivê-la da melhor forma possível.


Reportagem publicada na Revista Madame Brasil (2014)