terça-feira, 26 de novembro de 2019

Amor de Navalha




Há tempos, o amor parecia uma pluma de algodão
Leve, faceiro, com seu corpo roliço, macio,
Enxugando lágrimas, afagando sorrisos, 
embrulhando sonhos.
Mas agora o amor é como uma lâmina
Seca, apática, com sua densidade gélida 
e seus dentes agudos,
Desferindo golpes ríspidos, retalhando, sem freios,
as veias pulsantes de meu coração. 
Não há como parar a dor
Se a navalha ainda está lá,
Ferindo o amor de pluma
Que existia feliz, dentro de mim. 
Meu coração hoje sofre, 
Só que as lágrimas estão por dentro
Porque não sei escancarar a dor.
Se hoje eu sofro, se meu amor agoniza,
Se o sangue verte sem viço de minhas veias, 
Se eu me calo, mesmo estando as palavras a gritar
Dentro de mim, é dentro de mim que se fará o estardalhaço
Por fora, apenas o silêncio,
Um sorriso triste, lágrimas dançando na soleira da retina,
E a vida seguindo seu curso, 
Você sendo feliz, longe de mim.

Por Vanessa Olivier

sábado, 21 de setembro de 2019

Perder é ganhar















Se perder é um infortúnio, eu sou discrepância,
Pois pode até haver ganho sem perda,
Mas, nunca, perda sem ganho.
Eu perdi o aconchego do útero,
Mas ganhei o mundo.
Perdi o colo familiar,
Mas ganhei independência.
Perdi gente e bichos que amava,
Mas ganhei força, aquele aprendizado que só recebemos com a dor.
Perdi quilos, ganhei autoestima.
Perdi dinheiro, mas ganhei determinação para conseguir outro,
Perdi horas de sono, ganhei a satisfação do dever cumprido, do sonho alcançado.
Perdi medos, o desejo pelo inalcançável, a impaciência.
Perdi a juventude, ganhei maturidade.
Perdi anseios tolos, inseguranças, preconceitos.
Perdi o amor de alguém, mas ganhei o amor-próprio.
Perdi esperanças, e ganhei autoconhecimento.
Perdi empregos, ganhei novas oportunidades.
Perdi amizades, ganhei aprendizados.
Perdi a falta de compaixão, a apatia, a incompreensão.
Diversas vezes perdi a hora, o caminho, o fio da meada,
E ganhei uma segunda, terceira, quarta ... muitas chances
Mas continuo perdendo, a cada segundo, um pouco da vida
E a cada segundo, a vida me presenteia.
No fim das contas, perder sempre será igual a ganhar.
Perca, ganhe, viva!

Por Vanessa Olivier

Floresça



Aos poucos, o frio recolhe suas mantas de gelo,
E eu não sinto mais o vento seco me envolver
Com suas ásperas camadas frígidas.
Há uma sensação de conforto no ar,’
Um sopro quente, mas tíbio abraçando minha pele,
Um aroma sereno de flores recém-nascidas,
Plantas brotando vivazes da terra, folhas se regenerando,
O sol reinando plácido dentro do seu reduto febril.
Dentro de mim, sinto algo vibrando
É um retumbar semelhante ao timbre maciço de uma cigarra
E logo sei da verdade:
Podemos não perceber, mas, no fundo, somos como a primavera.
Sempre é tempo de restaurar o que é bom,
Fazer renascer a vida dentro de nós,
Espantar o frio, abrigar o calor,
E florescer.

Por Vanessa Olivier

terça-feira, 28 de maio de 2019

Marcas da vida


Um dia, sentada em frente ao espelho, percebeu que uma linha fina se formava entre suas sobrancelhas delineadas todas as vezes em que ela franzia a testa. Notou que a linha ficava um pouco mais suave quando ela relaxava o rosto. Era a primeira ruga que havia observado em seu semblante jovem e plácido. Mas, a partir daquele momento, sua serenidade se desviou numa curva que não deixa marcas visíveis.
Foi naquele dia que ela descobriu algo evidente, porém, inimaginável. Se aquela expressão marcava seu rosto com uma linha fina visível, que se tornaria cada vez mais profunda com o passar do tempo, deixar de fazê-la poderia ser a chave para retardar ou até mesmo evitar uma ruga profunda. Então ela passou a se policiar para não mais franzir a testa até que aquele comportamento incomum se tornou um hábito.
Toda vez que ela se espantava com algo, se irritava ou quando tentava enxergar por entre a luz radiante do sol, simplesmente respirava fundo e, calmamente, balbuciava: “O que?”. No caso da luz do sol, apenas evitava que seus olhos fossem ao encontro dela. E assim, a ausência dessa expressão em seu rosto deu lugar para outras, pois ela percebeu que poderia evitar mais sinais na pele caso deixasse de sorrir, chorar, gargalhar, gritar e assim por diante. “É tão simples evitar as rugas”, pensava ela.
Mas ao longo dos seus dias, acontecimentos inevitáveis tornavam seu propósito cada vez mais difícil. Era praticamente impossível não chorar toda vez que seu coração era partido por um homem, ou não rir quando saía para se divertir com as amigas, ou não se irritar ou se estressar quando alguma coisa dava errado no trabalho. Manter o semblante sereno estava ficando cada vez mais difícil diante dos acontecimentos corriqueiros do dia a dia. Com isso, outros sinais indesejáveis começavam a ser notados em seu belo rosto.
Diante do espelho, ela analisava todas as linhas que se formavam com cada expressão. Uma espécie de pânico começou a se formar bem no meio de seu estômago, como um redemoinho de emoções pronto para sugá-la para dentro de si mesma. As lágrimas explodiam descontroladas por sua face e, na sua mórbida insensatez, tomou uma decisão perigosa. A partir daquele dia, não mais sairia com as amigas, não conheceria outros homens, assistiria apenas a filmes que não a fizessem chorar ou gargalhar, deixaria de tomar sol, e mudaria de emprego, algo que fosse mais tranquilo, mesmo que pagasse infinitamente menos.
Assim foi. Com o passar do tempo, os convites das amigas se findaram, o trabalho passou a ser uma rotina demasiadamente tediosa, seus dias de flerte ficaram para trás e, o sol, guardado por trás das cortinas de sua casa. Finalmente, ela seguia firme no seu propósito, mantendo um rosto sempre sereno, com pouquíssimas linhas de expressão.
Anos depois, em frente ao espelho, notou que as linhas em seu rosto continuavam muito suaves e se alegrou muito com isso, mas sem deixar que uma expressão de felicidade atravessasse seu semblante. Ela estava conseguindo atingir seu objetivo, não aparentava, nem longe, a idade que tinha. Seu rosto continuava bonito, sua pele, lisa. Entretanto, depois de alguns longos minutos observando a própria aparência, percebeu algo novo que quase roubou o ar de seus pulmões, deixando-a perplexa.
Diante do espelho estava uma mulher de 59 anos, cabelos escuros e sedosos que caiam ondulados por seus ombros eretos, pele clara sem sinais de rugas mais proeminentes, apenas algumas linhas finíssimas que até lhe davam um ar ainda mais elegante, lábios levemente cheios, hidratados e roseados, contornos ainda suaves e surpreendentemente sólidos. Era, sem dúvida, uma bela mulher. Mas o que a espantou foi algo tão gritante e que, de forma incompreensiva, havia passado batido por suas análises anteriores.
Os olhos dela, redondos, delineados por um lápis fino e adornados por longos e curvados cílios, não exibiam olheiras por baixo deles, tão pouco, bolsas, apenas alguns traços imperceptíveis dos anos passados. A cor das íris eram castanhas, as pálpebras continuavam rijas e aparentes, mas não foi nada disso que havia chamado sua atenção. Algo neles a encheu de pavor e tudo o que havia feito desde então para evitar as temidas rugas parecia desmoronar diante de si. Um mundo desprovido de sensações, uma vida que não foi vivida.
O rosto bonito e jovem que lhe encarava de volta no espelho não era dela. Aqueles não eram seus olhos, a mulher diante de si não era ela. Sem se dar conta, ela havia se transformado em um ser desprovido de humanidade, era como um andrógeno ou um alienígena. Seus olhos castanhos não tinham brilho, eram como dois botões irrelevantes de uma blusa. Sua pele, embora ainda um pouco fresca, não havia luminosidade, era como a borracha usada para construir uma boneca barata. Ela era uma imitação patética de um ser humano.
De repente, o redemoinho, que quase rasgou seu estômago anos atrás quando decidiu evitar qualquer emoção mais forte capaz de transparecer em seu rosto, tornou a fervilhar dentro dela. Era como se tudo o que deixou de viver, cada lágrima, cada riso, cada suspiro, cada grito ganhasse vida própria e se aboletasse na boca de seu estômago. Naquele momento, ela teve certeza absoluta de que iria explodir. Mas não explodiu.
Em vez disso, perdeu os sentidos e seu corpo forte caiu amolecido sobre o piso frio. Quando recobrou a consciência, levantou-se com dificuldade sentindo que as pernas pareciam ter o dobro do peso de antes. Sentou-se novamente em sua banqueta, em frente ao espelho, e quando levantou os olhos para encarar seu reflexo, ficou ainda mais estarrecida. O rosto que lhe encarava de volta realmente pertencia a uma mulher de 59 anos, e cada ano vivido estava estampado, de alguma forma, em sua pele, agora marcada.
Atônita, compreendeu imediatamente o que havia acontecido. E estranhamente, de algum modo, pareceu ficar satisfeita. Ela, então, permitiu-se a sorrir. A partir daquele momento decidiu que nunca mais se privaria. Doesse a quem doer!

Vanessa Olivier
   


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Pitada felina


Minha felinidade cola com a sua ...
Por hora, voltada para dentro de mim,
No aconchego de minhas próprias apreciações.
Mas, em outras horas,
À procura de recantos externos ...
Uma fagulha explosiva de devoção,
Uma centelha abundante de estima,
Uma pitada, mas só uma pitada,
De amor, incandescente amor!  

Vanessa Olivier

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Fique!



O reflexo no espelho foi impiedoso
Busquei na lâmina fria uma ponta de sutileza
Na linha fina que faz sombra aos cílios longos,
No contorno preeminente às quinas dos lábios esguios,
Na saliência bugosa sob os olhos escuros.
Mas no silêncio do espanto se fez uma resposta
Assustadoramente diáfana,
O peito gorgolejando pontadas doridas,
E insensata, resfoleguei, praguejando os ponteiros
De um tempo que me escapou,
Escorregadio, apático dos meus desejos,
E deixando uma saudade vulgar, quase tola
Dos áureos dias de coração bucólico,
Uma pele tenra de quem ainda há esquinas,
Ruas, estradas, planícies, horizontes imaculados.
Mas a saudade arteira me encara no espelho,
Os olhos se arregalam, a boca se retrai em ultraje
A convicção das rugas, inusitadamente,
Pisca-me um olho, e a resposta é clara:
Seja o ontem, o hoje e o amanhã.
Saudade, pode ficar, não ligo!

Vanessa Olivier

Imperfeita perfeição

Uma lágrima dos meus olhos caiu
Juntou-se às águas do mar
Numa onda de lamentos acertando meu rosto
Sal, saliva, líquido jorrando vida
Diluindo tristezas, lavando meu pranto cansado
Incansável afluência,
Natureza de profusão.
De repente me vi ao meio
Dor, alegria, uma partilha desatinada
Ora íntegra.
Mar, criatura, fundindo-se em comunhão,
Como deve ser,
Natural, natureza,
Imperfeita perfeição, como é,
Como deve ser ...

Vanessa Olivier



sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Um amor ao meio


Inconsciente, inconsequente
Sigo buscando seu rastro
Num caminho feito de meias palavras,
Meias verdades, meia luz,
Onde o tudo já não existe, 
Só o meio, partido ao meio
Um coração dividido
Uma dor compartilhada
Uma lágrima apenas ...
Um Meio sorriso
É só o que me resta de ti

Vanessa Olivier



sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Inteira

Eu me despedaço porque não sei ser apenas metade de mim
Depois me refaço porque não sei viver solta ao vento 
Talvez um dia eu viva
Respire
E me entregue inteira
Sem que meus cacos se espalhem ao acaso
Pois só assim poderei ser livre
Talvez ...

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Maternal


Antes, tudo era euforia, pressa,
Uma confusão de anseios
E o tempo vindo em profusão ...
O espelho só refletia uma imagem,
Era apenas eu morando em mim mesma,
E meus olhos buscando a beleza,
O prazer, a eloquência, o mundo ...
Antes, eu era brisa marítima,
Uma força vinda apenas dos ventos diurnos
Algo unilateral,
Antes era só eu e eu nem sabia.
E nem soube quando tudo mudou,
Se foi na descoberta de você,
Ou quando o vi chegar,
Com calma e urgência,
A cada mês mais forte, mais presente
Um novo coração dentro de mim...
Ou ainda naquele dia,
Um banho de dor, medo e devoção,
O seu choro alto, forte,
As minhas lágrimas profusas, confusas,
A nossa conexão se moldando,
Seus olhos nos meus.
Ou se foi no aconchego, quente, doído,
Os primeiros fluídos,
Derramando vida, expelindo amor.
Antes era só eu, bem antes de você.
Hoje o tempo não é mais meu,
Nem o espelho, muito menos o mundo.
Eu não sou mais apenas minha,
E isso é uma dádiva,
Não que ser apenas minha fosse pouco,
Apenas mudou o eixo.
Hoje sou maré,
Uma força movida por uma união perfeita,
A lua e o sol,
Eu e você, um dueto vital
E hoje somos nós, para sempre ...