terça-feira, 28 de junho de 2016

O amor no ódio




Estavam os dez, um ao lado do outro. Esperavam impacientes para receber a missão escolhida pelo Senhor. Eram querubins, cheios de energia, ansiedade e um pouco de temor. Enquanto a ordem não vinha, tentavam imaginar quais os tipos de mortais que iriam amparar. E ainda que não soubessem, já podiam sentir um imenso amor.
Era chegada a hora. Um por um foi conhecendo seu humano escolhido e se emocionando. No fim da escolha, todos estavam contentes, exceto um deles. Quando o Senhor se retirou, um murmúrio de vozes e risinhos encheu o ambiente de alegria. Porém, entre as vozes eufóricas e jubilosas, soou triste a voz de Ireléu.
Assustados, todos o olharam. O pequeno querubim, de olhos grandes e expressivos, cabelos encaracolados e dentes salientes, desabafou. Triste, não compreendia os motivos do Senhor ao lhe dar o pior dos humanos para que protegesse. Sentiu-se inferior em relação aos outros querubins, os quais ganharam mortais de alma boa. Todos festejavam ao descobrir que foram contemplados com crianças de rua, idosos solitários, mulheres desprezadas e homens injustiçados, que pareciam tão carentes e necessitados de ajuda. E, no entanto, a maçã podre ficou para Ireléu, “isso não é justo”, pensava ele.
Seu escolhido era um homem cruel, que matava, furtava, humilhava, maltratava, enganava seus irmãos, e ainda cometia o pior dos pecados: não crer em Deus. Revoltado, Ireléu tentou recorrer com o Senhor que, atencioso, não dizia nada. Quando o querubim terminou de expressar o que estava sentindo, relatando toda sua incompreensão e desilusão, o Senhor sorriu e disse:
- Todos são meus filhos. Agora vá, e cumpra tua missão. - Arrependido pela tentativa e lamentando sua falta de sorte, Ireléu obedeceu.
Os querubins se despediam e desejavam boa sorte uns aos outros. Antes de ir, Ireléu olhou demoradamente para seus colegas e, desconsolado, baixou os olhos, envergonhado de si. Um deles, percebendo seu desgosto, foi ter com ele. Rafael, como se chamava o querubim, acariciou os cabelos encaracolados de Ireléu e disse, com ternura nos olhos:
- Devias estar feliz. Com o tempo irás perceber o presente que ganhaste. - O pequeno querubim ergueu os grandes olhos e disse, sem compreender as palavras de Rafael.
- Diz isso porque ganhaste uma criança de rua, triste, faminta e carente para proteger. Pois eu, ao contrário de ti, ganhei uma alma perdida, a qual não deveria merecer piedade, pois é cruel e descrente. Nunca poderei sentir amor por tal criatura. - Rafael deu um beijo em sua testa e o desejou boa sorte.
O sol ardia altivo no alto do céu, clareando e abrasando a terra quente. O cheiro de leite fresco, capim molhado e esterco, o ruído de máquinas de fabricar queijo, mugido de bovinos e cacarejar de galinhas enriqueciam todo o cenário e anunciavam o inesgotável trabalho no campo. O querubim estava fascinado com o que via. A natureza dava vivas de alegria, as árvores respiravam felizes com seus frutos maduros e saudáveis, os rios desciam livremente com suas águas translúcidas e o vento caminhava sem pressa, com uma agradável sensação de liberdade. Tudo era paz e harmonia.
Sentado em uma poltrona, impregnando-se de um charuto caro e fedorento, estava o mortal. Era um homem de 56 anos, braços fortes, cabelos e bigode grisalhos, uma saliência protuberante no abdômen, pele escura pelo sol e olhos firmes. Usava botas e cinto de couro de jacaré, camisa de manga curta e calça jeans. Ireléu reparou que o homem possuía uma enorme cicatriz no braço direito. Analisou seus olhos e não conseguiu descobrir o que diziam. Eram olhos silenciosos, os quais camuflavam os segredos da alma. Seria difícil conhecê-lo profundamente, lamentou o querubim.
      Coronel Batista, assim chamava o protegido de Ireléu. Possuía um verdadeiro império de produção de leite e queijo. Toda a riqueza que conseguiu acumular em sua vida, não havia sido por meios legais. E tudo que conseguiu atrair foi ódio, medo e dor. Tinha uma enorme e inigualável capacidade de causar o sofrimento alheio. Já havia mandado executar milhares de sem-terras que invadiram suas propriedades abandonadas à procura de abrigo e comida para tentar sobreviver em um mundo de desigualdades. Havia torturado e humilhado inúmeros empregados, prejudicado muitas famílias, e praguejado diversos mendigos. Usava as mulheres como objeto fungível, ria dos miseráveis e blasfemava contra Deus. Era um homem sem piedade e amor à vida. Todos que o conheciam diziam que ele tinha o corpo fechado. Foram muitos os que tentaram acabar com sua vida, sem nenhum êxito. Era protegido por seus guardas, mas, sobretudo, acreditavam que era guardado por forças superiores e ocultas. Por fim, quem conhecia sua fama jamais se arriscaria a se intervir em seu caminho. O seu poder esmagava qualquer criatura que tornasse um fardo ou uma ameaça para ele.     
Depois desta longa análise, Ireléu não sabia como deveria agir. “De quê devo protegê-lo e como?”, perguntava-se confuso. Antes de tudo, se lembrou que precisava sentir amor pelo seu escolhido. O grande amor que lhe daria os poderes para enfrentar tudo e todos. Porém, não compreendia a missão que o Senhor o delegou. Como a todos os outros querubins, deveria ele proteger alguém carente, fraco, injustiçado, enfim, vítima das maldades dos humanos. Mas o coronel não parecia fraco, injustiçado, nem carente e, muito menos, vítima da crueldade humana.     
Ainda era um querubim e essa era a primeira missão que recebia. Precisava vencê-la para se tornar serafim. Mas ainda era muito jovem, ingênuo e não conhecia a verdade. Precisava aprender e era aquela missão que o ensinaria os mistérios da vida. Porém, não a compreendia e achava-se incapaz de sentir amor por tal homem desumano. Chorou lágrimas celestiais.
O tempo passava e durante todos os dias Ireléu via seu protegido cometer crueldades e injustiças, sem poder fazer nada, pois não conseguia amá-lo. Mas, em um certo dia, cansado e quase derrotado, sem poder mais conviver com tanta dor, teve um segundo de lucidez. Lembrou-se que o Senhor mandou proteger o coronel, porém, não conseguiu ver nada que o ameaçasse. Aí, então, o querubim pensou: “O Senhor ordenou que eu o protegesse, mas não disse de quê. Como não encontrei alguém ou algo que o ameaçasse, a única ameaça é ele mesmo. Preciso protegê-lo dele mesmo. Mas como farei isso?”, perguntava Ireléu ao Senhor, com os olhos no firmamento. Sem nenhuma resposta, o querubim passou o dia refletindo. Mas ele sabia que antes de tudo deveria amá-lo. Haveria de encontrar uma ponta de humanidade no coração do coronel. Precisava aprender a ler seus olhos, talvez, revelassem algo de bom escondido em sua alma, por medo ou vergonha.
Os dias se passavam, o tempo para cumprir sua missão estava se esgotando e ele nem ao menos conseguia amar seu protegido. O desespero e a vergonha atingiam o pobre querubim. Iria fracassar, como poderia olhar nos olhos do Senhor?, pensava ele.  
Porém, num momento percebeu o quanto havia sido tolo e ingênuo. Ele chorou, e seu pranto foi capaz de lavar sua vergonha e sua tristeza. Percebeu que o coronel era só. Rico, poderoso, mas um pobre solitário. Nenhuma mulher era capaz de amá-lo, pois dele sentiam medo, ódio e nojo. Havia tido um filho, que se perdeu pelo mundo. Também havia sido apaixonado por uma mulher, que o traiu, e acabou sendo morta por ele. E sentido dor, que o levou a cometer seu primeiro homicídio. Havia chorado, sofrido e a dor devorado de vez a única ponta de amor que trazia no coração. Por fim, o coronel deveria ser infeliz. 
De repente, o querubim começou a sentir pena de seu protegido e olhá-lo com olhos brandos. Ireléu começou a analisar atentamente o homem diante de si, sentado em sua poltrona, fumando vagarosamente um charuto, seu único companheiro. A noite era imensa. A fazenda era ainda mais bela iluminada por aquela lua divina, que quase era capaz de cegar os olhos de quem a apreciava. O silêncio na imensa sala do coronel caia pesado e triste. E seus olhos tinham um brilho oculto, misturando dor e alegria. Olhava às suas terras e à sua riqueza com orgulho. Porém, via sua solidão com dor e vergonha. Talvez, raiva de si e arrependimento. Ódio da sua incapacidade de amar.
Ireléu se assustou. Finalmente viu que nos olhos do coronel havia vergonha. Um sentimento camuflado a todos e até mesmo a ele durante o dia, mas que com o cair da noite, quando o silêncio reina absoluto, quase chega a sufocá-lo. Sabia que era uma criatura infeliz, e que apesar de todo seu poder e riqueza, não dispunha daquilo que tantas pessoas, as quais mesmo sem ter fortuna e poder como o seu, tinham: Amor. Elas amavam e ele as odiava e, simultaneamente, as invejava. Sabia que poderia ter tudo o que quisesse porque tinha poder. Mas não o amor, simplesmente por ter vergonha. O seu orgulho o dominava e perante aos olhos dos outros queria parecer um homem frio e cruel, com tal poder que faria o amor se sentir fraco e humilhado. Mas, na verdade, ele era o fraco, pois era incapaz de se permitir a amar. E isso o fazia sofrer e ter raiva do mundo. 
Só agora o querubim descobriu que havia ganhado o mesmo tipo de mortal que os outros para proteger. Entendeu que seu escolhido era fraco, carente e vítima das maldades humanas, porque antes de tudo era filho de Deus e sentia dor e vergonha. Queria amar, mas era fraco para vencer o seu orgulho. Solitário, carecia de afeto. E, como se não bastasse, fazia-se vítima de sua própria crueldade, a maldade humana. Ireléu sorriu e começou a sentir um profundo e infinito amor por aquele mortal. Amava-o com tanta intensidade, que o Senhor acabou por lhe dar os poderes para protegê-lo. E, sendo assim, venceu o primeiro obstáculo de sua missão que, sem dúvida alguma, a mais difícil. “Agora será fácil, pois eu o amo”, pensou, satisfeito.


Nos próximos e últimos dias de sua missão, se dedicou em proteger o coronel dele mesmo. Aos poucos, utilizando situações comuns, fez seu protegido enxergar que a vida sem amor é como uma imensa fazenda, mas sem ninguém para preservá-la, cuidar dos animais, fabricar os queijos, fazê-la progredir e acreditar que está viva, perdendo, assim, o sentido do existir. Ireléu aprendeu e ensinou ao seu protegido a verdade. Venceu sua missão e se lembrou das palavras do querubim Rafael: “Com o tempo irás perceber o presente que ganhastes”. Agora ele sabia e agradecia ao Senhor pela missão que havia ganhado. Venceu o mais difícil dos obstáculos. Encontrou o amor no ódio, e entendeu que todos são filhos de Deus.

Por Vanessa Olivier

terça-feira, 24 de maio de 2016

Desconexa



Não consigo calar meu silêncio
Não dá pra gritar mais alto do que o vazio
E a minha agonia sempre foi palpável.
Estranhas contradições me perseguem
Como um beijo sem o toque
Ou uma saudade do que não existe.

Vivo assim, a espreita
De algo real, permanente
Que me cale as vozes baixas
E me faça gritar mais alto
Do que os mudos brados em minha mente.

Talvez um dia eu possa pedir
Só um pouco de silêncio
Um espaço no vazio
Um beijo nos lábios
Um pouco mais de mim
Um pouco de alguém.






Por Vanessa Olivier

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Dor Feliz

Ao abrir os olhos e levá-los ao alto, avistou a borda do colchão macio e, imediatamente, suas costas reclamaram da aspereza do piso laminado. Não sabia como havia parado ali, no chão frio de seu quarto solitário. Era a terceira vez que acordava, no meio da noite, fora do aconchego de sua cama. E apesar do desconforto, não sentia nenhuma vontade de se deitar naquele espaço, hoje vazio, que um dia acalentara muitas noites de amor.  Preferiu continuar ali, estendida em meio à sua dor, que apesar de feri-la cruelmente, também oferecia um modo mordaz de preencher as lacunas da sua recente viuvez.
Lili queria apenas dormir, não era capaz de lidar com aquele sentimento corrosivo que tirava dela a alegria de viver. Estava irritada, com raiva da saudade que a flagelava todos os dias, principalmente, às noites, privada de ouvir a respiração ruidosa do marido, ou sentir os braços dele enlaçando seu corpo dormente durante cálidas madrugadas. Seu ódio por tudo aquilo era tanto que desejou, com toda força, poder esbofetear a saudade e gritar para ela os mais terríveis insultos.
Após ter adormecido embalada por pensamentos insensatos, acordou horas depois, quando as luzes da manhã já penetravam apressadas pelas frestas da janela do quarto. Lili levantou-se sem vontade, olhou demoradamente para a cama arrumada e foi despertada de seus devaneios com um som que parecia ter vindo da suíte. Descalça, andou na ponta dos pés e se postou ao lado da porta entreaberta do banheiro. Seu coração deu um salto ao ver, pelas frestas, um vulto se mexer lá dentro. Analisou o quarto a procura de algum objeto que pudesse se transformar em uma arma e sorriu quando seus olhos alcançaram o abajur de madeira maciça sob o criado mudo.
Foi buscar o objeto, pé ante pé, e depois voltou com ele ao lugar onde estava. Esperou um pouco, ao lado da porta, que o vulto saísse, mas o seu coração era como uma metralhadora viva, e ela precisava agir. Segurando o abajur com as duas mãos acima da cabeça, chutou com força a porta, escancarando-a. Subitamente, a cor sumiu de seu rosto. Pensou que iria desmaiar, mas a paralisia abrupta de seus membros não permitiu que ela movesse nem ao menos os olhos. Prendeu a respiração por um tempo acima do normal e só a soltou quando seus pulmões começaram a gritar por socorro.  – Isso é impossível! – murmurou estarrecida.
Lili não podia acreditar no que via. O seu desejo insano aflorado com tanto afinco na noite passada estava ali, à sua frente, dentro de seu banheiro. Era real, tinha agora um corpo e um rosto que Lili prontamente os reconheceu. Os olhos de Lili se encheram de lágrimas e ela chorou porque não era capaz de qualquer agressão. Ao conseguir se mexer novamente, abaixou os braços e repousou o abajur no chão. Enquanto as lágrimas dela escorriam derrotadas por sua face pálida, a saudade sorria. Lili estava chocada por descobrir que não a odiava tanto quanto imaginara.
A saudade tinha olhos meigos e um sorriso infantil. Seu rosto era sereno e estranhamente familiar. No primeiro momento, ela tinha a forma de uma criança, mas conforme o tempo passava, adquiria expressões cada vez mais adultas.
- Estou aqui agora. Faça o que desejou – falou a saudade, e o som da sua voz era indecifrável, nem agudo, nem grave. Mas era impossível para Lili esboçar qualquer reação.
- Não posso. – Lili teve vontade de abraçar a saudade, mas ainda não podia reagir.
- Eu sou as suas lágrimas, sou a sua dor.  Eu faço você sofrer todos os dias e noites. Sou eu o seu pior tormento. – A saudade continuava serena, impassível, ainda com aquele sorriso no rosto, e tinha a expressão de uma criança, embora seu corpo agora parecesse pertencer a um idoso.
Lili lembrou-se das noites que chorou, com o rosto colado no piso laminado do quarto, até o cansaço ser maior que a dor, lembrou-se de todas as manhãs que acordou sozinha na cama e ouviu o som do chuveiro ligado (ele sempre despertava antes e jamais a acordava), lembrou-se do lugar vazio na mesa do café da manhã e de todas as vezes em que ele preparou para ela deliciosas rabanadas para o desjejum. De repente, o sentimento da noite anterior voltou com mais intensidade e ela estava tomada de ódio. Proferiu os nomes mais horríveis que vieram em sua mente e, insana, avançou com as mãos fechadas em punho, prontas para golpear a saudade. Mas se deteve.
   Novamente, a saudade tinha a forma de uma criança e seus olhos emanavam tristeza e amor. Misteriosamente, o ódio de Lili deu lugar a um sentimento novo, parecido com gratidão. Ela começou a entender que não era certo odiar a saudade, percebeu que não queria feri-la, tão pouco fazê-la desaparecer. A saudade era uma dor necessária e urgente. Sem ela, haveria apenas o vazio. E nada no mundo poderia ser pior do que o vazio, pensou Lili. Finalmente, abriu os braços e acalentou a saudade. Ela era a sua eterna companheira. A dor mais feliz que poderia sentir. E suas lágrimas misturaram-se ao seu riso.  


Por Vanessa Olivier

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Tudo .... basta


Os ruídos parecem distantes
Longe demais para ouvir
Em volta, logo à frente, ao lado
Em baixo, em cima,
Mas longe...
A tristeza já morreu, agonizou,
Mesmo estando ali,
Num canto do coração
A dor latejando, ferindo
Mas inócua ....
O vento corre, assopra, grita
Gela o sangue, arranca arrepios
E parece quente,
Mesmo a envolver o corpo trêmulo
Mas cálido ...
As horas dormem
Mesmo o tempo estando em pé
Apressado para a hora do crepúsculo
Mudando paisagens
Esbranquiçando cabelos,
Enrugando sorrisos, 
Mas congelado ...
Os ruídos se espalham
A tristeza finca as garras
O frio eriça cabelos
O tempo não para
No entanto tudo é longe
Tudo é paz, calor, repouso
Tudo não existe
E o que existe é tudo
Só o amor basta ....

Por Vanessa Olivier

Ausência

Um vazio no céu refletiu meu olhar
Não estava você
Nenhuma constelação,
Nem Vênus, nem Marte
Só o brilho lânguido de uma lua
A derramar uma luz latente
Orvalhada de saudade
E amor

Não era solidão
Nem tristeza calada
Não havia espaço para o penar
Ausência faz tremer de um frio oculto
Comprimi sem mãos o coração
Mas não deixa lágrimas
Um sorriso apenas,
Um denso suspiro
E a certeza do amanhã
Amor álacre a saciar
Desmedida saudade.

Por Vanessa Olivier

terça-feira, 17 de maio de 2016

Caminhos Turvos

      Caminho na estrada longa
Com pedras e pedregulhos
Buracos e desvios
Caminhos turvos.
Olhos baixos, pensamentos embriagados
De fome, corroendo meu espírito
São.
No meu delírio simultâneo
Ouço vozes, alarido,
E um ganido de dor.
Imagens camufladas
Transpassadas de fúria
Risos coléricos e uma lágrima nas pálpebras de teus olhos
Profundos cristais.

Caminho na estrada longa
Débil sonho
Coberto de flores
Emana o cheiro da morte
E degusto com prazer
O mel do pecado
Que escorre dos teus lábios
Tépidos.
Desfruto zombeteira 
A chama ardente de um
Vulto sádico
Que circunda meus olhos
Febriz, rubros
Da cor escarlate de meu batom.
Rogos apelos
Nos olhos veneno
De quem tudo quer
Caminhos torpes.

Por Vanessa Olivier

Primeiro encontro


Os olhos ainda embutidos
Pela sofreguidão demasiada
O primeiro encontro.
Umedece os lábios com a ponta da língua, e
Arfa-lhe os seios, e
Fogueiam-lhe as bochechas coradas,
Sente ferver-lhe a pele quente,
Aspira o ar perfumado,
Repleto de uma essência afrodisíaca.
Os lábios lúbricos
Entregam-se insaciáveis ao toque abrasador dos lábios dele.
Os olhos vívidos
Fecham-se caindo nas mãos da volúpia.
Amolecem os braços tombando no ar,
Sente o corpo dormente.
Ele segura-lhe a cintura delgada,
E ela, esmaecia de paixão,
Incandescida pelos beijos árdegos,
Os quais afloravam-lhe a pele,
E desabrochavam-lhe a tímida flor.

Por Vanessa Olivier

Na Contra-mão


Eles não estavam querendo conversa. O mais velho buscava em vão no azul do céu algum sinal, só não se sabia de quê. Flávio saiu ressabiado, ainda expiando por cima dos ombros, um olhar meio de esquina, aquele que não quer ser percebido, mas tem esperança de alcançar algo. Dobrou a quadra, temeroso de que alguém o visse caminhando na contra-mão de seus valores, sem lenço, documento e razão. Pensou em voltar, quem sabe os irmãos ainda poderiam mudar de ideia, antes que ele se afundasse de vez na lama do degredo. Mas era tarde, sua vida agora valia não mais do que alguns centavos, e o serviço sujo tinha hora para terminar.
O caminho parecia demasiado pequeno. Tentou encurtar os passos para ganhar tempo e pensar no que fazer. Suas mãos estavam frias, apesar do calor de quase quarenta graus. O frio vinha de sua alma, já que ele não mais sabia se ainda a tinha. De longe viu Dalila, brincando com as tranças de aplique, um sorriso maroto e, ao mesmo tempo, ingênuo, olhos de quem já conheceu a face mais podre de todo o submundo, mas que ainda acredita que a vida pode ter um tom rosa, da cor do vestido que ressalta suas curvas fortes de macho-fêmea.
Ela percebeu que Flávio a olhava, mas toda sua sensibilidade de alma feminina não poderia ser capaz de adivinhar o que se escondia naquele olhar. Retribuiu-o sem ao menos saber que feição teria seus olhos cor de avelã, sustentando longos cílios negros postiços, e um tom de azul ofuscante nas pálpebras. Mas Flávio desviou o olhar e sentiu um suor fino pingar de sua fronte. Dalila deu de ombros, e voltou a atenção aos companheiros que vislumbravam nela um prazer o qual ainda poderia satisfazê-los na mediocridade de uma vida sem valias.
Ele subiu a rampa de solo batido, sentindo que o fim da linha se aproximava. Acendeu um baseado para consumir suas entranhas e calar o nervosismo que já atingia seus órgãos vitais. Esperou recostado à parede suja, cheirando a fumo pesado de quem já se aventurou por espaços ilusórios, encontrando o céu e o inferno e acabando num chão frio, leito dos covardes e de quem não tem mais nada. Lembrou-se do tempo em que acreditava poder levar a vida, sem perceber que a vida o levava, nem sempre para onde queria ir. Acabou perdendo de vez a direção, e sem oferecer resistência, chegou ao mais baixo degrau de sua escala.
Flávio continuava aspirando e respirando a fumaça de poluentes compulsivamente, até que sentiu os lábios dormentes e o coração cavalgar num ritmo mais lento, no compasso de sua força, aquela consciente. Ouviu passos arrastados, mas não atinou os sentidos para o que estava por vir. Sua força inconsciente tentava reagir, mas defrontava-se com o medo, algo tão forte que ganha corpo e corrompe mais do que o dinheiro. Sentiu uma mão pesada segurar firme seu ombro esquerdo e percebeu que precisava reagir, o mais rápido possível.
- Desembucha - disse o brutamonte de nariz grande e olhos pequenos, que mal se percebe que estão abertos, no ávido desejo de saber quem havia dedurado seu plano de fuga para poder pedir a cabeça do “alcaguete” traidor.
Flávio apagou o cigarro na parede e não ousou desencostar dela, pois sentia as pernas frágeis como uma pena solta ao vento. Lembrou-se da promessa dos irmãos, da lâmina que riscaria sua garganta no escuro de uma cela fria, do sorriso de Dalila que poderia até apaziguar os horrores da enorme jaula, do dia em que foi pego com 50 quilos de maconha, das lágrimas de sua mãe, da promessa que havia feito ao pai falecido, que teve a vida a prêmio por um grupo de “alcaguetes”, da noite confusa na qual quase não se via nada, a não ser homens fardados desferindo golpes de cacetetes contra um grupo feroz de pessoas condenadas na vida e na morte após uma tentativa frustrada de fuga, e voltou o olhar ao gigante de olhos quase invisíveis, que já demonstrava falta de paciência.
- Como é que é malandro? Foi o traveco ou não? - falou o brutamonte, expelindo salivas ao pronunciar as palavras com um timbre grave, quase igual ao ronco de um estômago faminto.
E, novamente, a ameaça dos irmãos “alcaguetes” gritou nos ouvidos de Flávio, o olhar despreocupado e inofensivo de Dalila, com suas tranças de aplique, invadiu suas retinas, assim como a noite confusa que começou na enfermaria quando um grupo de presidiários chegou escoltado para receber cuidados médicos, entre eles, os irmãos e Dalila. Flávio, auxiliar de enfermagem e detento do presídio “Vale das Pedras”, surpreendeu uma conversa entre os irmãos e um tira, na qual um plano de fuga estava sendo dedurado, em troca de pequenos favores. E já sabendo que a bomba poderia estourar na sua mão, tentou fazer-se de rogado, mas foi logo descoberto e incumbido da missão de acusar alguém que incomodava, simplesmente porque tinha alegria e não devia nada a ninguém. 
 ­­- Nunca vou ser cagueta - a frase saiu sem querer, pois Flávio repetiu em pensamento explicito o que havia prometido ao pai morto a tiros nos becos do submundo.
- Como é que é? - os olhinhos do brutamonte se arregalaram tanto que até deu para ver a cor que tinham.
- Não ... é, espere - Flávio perdeu o ar, e imaginou o gosto do sangue escorrendo por sua garganta e a vida o levando para onde sempre temeu. O medo criava celas imensas que afugentavam sua força inconsciente e o único valor que se orgulhava de ter em sua vida de misérias. Para ele, entregar alguém era terrível e pior era acusar um inocente, ainda mais Dalila, que não se furtava de distribuir sorrisos mesmo sendo os seus dias de pura dor e solidão. Se falasse a verdade, ou se fizesse de surdo e mudo morreria de uma vez só, mas se mentisse, a morte poderia vir lentamente, todos os dias um pouco, até que a última gota de vida se esvaísse de sua vil carcaça.
 E sem pensar mais em nada, a resposta veio suada, carregada de uma vida, um ser humano todo, tudo o que ainda restava a Flávio e que seus caminhos torpes lutavam para roubá-lo e levá-lo ao lugar no qual nunca quis estar: no lamaçal de seus valores.
- Não foi - a voz saiu rasgada, como uma tosse de cachorro louco.
- Então quem foi? - desta vez, inúmeras partículas de saliva saíram junto com a voz de ronco de estômago do gigante de olhinhos minúsculos e foram encontrar o rosto pávido do ajudante de enfermagem.
- Não sou cagueta - disse Flávio, sentindo as pernas úmidas com a urina que escorria incontrolavelmente por dentro da calça jeans, mas, que, contrariamente, demonstrava uma incrível coragem diante de um mundo de brutamontes covardes e de quem da vida já não tem mais nada.  

Por Vanessa Olivier

terça-feira, 3 de maio de 2016

Explosão




Um encontro ... um olhar .... um beijo

Lábios que se tocam ... um calor que percorre

E atravessa o corpo .... transpira

Respiração afoita ... sente o gosto do prazer
Lábios tépidos, macios, úmidos 
Emoção que queima a pele, febril 
Fecha os olhos, mas as retinas vêem a explosão 
E não há nada ao redor, nem o dia, nem a noite,
Nem o hoje, nem o amanhã ....


Por Vanessa Olivier

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Amanheceu

Ele não está me ouvindo. As palavras jorram de minha boca como uma avalanche de cacos, talhos de madeira, poeira e restos de comida. São os entulhos abarrotados de minha alma que estão sendo lançados para lugar nenhum. Por mais que eu grite e me esvaia em lágrimas e soluços misturados a um confuso dialeto, nada parece abalar sua intolerável autoconfiança. Do alto de sua empáfia, ele me olha impassível. A boca, às vezes, se mexe sutilmente em uma menção de quem anseia calar o próprio silêncio, mas logo os lábios finos se apertam, selando-se a frio.
Miro fundo naqueles olhos cor de caramelo queimado à procura de um vestígio de amor, algo que não me deixe na sombra de meus próprios tormentos. Sinto deslizar uma lágrima pelo canto de meu olho esquerdo e deixo que ela passeie pelo meu rosto até se perder na curva de meu pescoço. Eu já não falo mais, apenas o encaro com medo do que possam revelar seus olhos de fogo. Sem querer enxergar, penso ter visto reluzir uma sombra de piedade.
Mas nada disso está funcionando, eu me encontro perdida demais para entender os sinais, preciso de algo mais concreto. Espero, até que adormeço no aconchego solitário de meu sofá de três lugares. Na sala, apenas o silêncio de minha própria respiração.
Acordo em um sobressalto. No ambiente mal iluminado posso avistar um pequeno pedaço de papel em cima da mesa de centro. Esfrego os olhos embaralhados e estendo as mãos para alcançar o bilhete. A pouca luz atrapalha a leitura e preciso me levantar para tocar o interruptor. Sinto o corpo pesado, fraco, vitimizado pela recente sessão de quimioterapia. Quando a sala se ilumina, tenho medo de encarar o amontoado de letras no papel. Aliás, medo é meu companheiro desde o descobrimento do nódulo em meio seio esquerdo.
Procuro um assento mais próximo para repousar meu esgotamento. O assalto do retumbar de meu coração quase me deixa sem fôlego. Eu sei o que preciso fazer, mas o pavor do futuro que virá depois que eu ler o bilhete parece me paralisar. Não sei por quanto tempo fico sentada, com o papel sobre o colo, sem poder descobrir a verdade.
 Mas eu preciso encarar, como fiz quando abri o envelope que trazia o resultado da biopsia sobre o tipo do tumor instalado em meu corpo. No dia em que me submeti à cirurgia para retirar um de meios seios e, com ele, toda minha feminilidade. Quando finalmente consegui olhar no espelho e ver o reflexo de meu corpo nu e dolorosamente mutilado. Ao fazer a primeira sessão de quimioterapia e sentir o mundo todo rodar. No momento em que agarrei firme o aparelho de barbear, que ele sempre esquecia sob a bancada da pia do meu banheiro, e o manuseei sobre meu próprio couro cabeludo, acabando com as evidências do que já tinha sido uma longa, farta e bela cabeleira loira.
Depois de pensar nisso tudo, finalmente meus olhos encontram a letra de forma no papel já entre meus dedos frios. Lá fora, a manhã se levanta iluminando, aos poucos, as ruas de meu bairro, e clareando as frestas da persiana que cobre a janela. Depois de ler e reler dezenas de vezes aquele bilhete, aos poucos meu coração volta ao ritmo normal. Solto o ar preso de meus pulmões e, no momento em que fecho os olhos, as lágrimas que já queimam dentro de minhas retinas caiem frescas sobre as maçãs de meu rosto. Estranhamente, não sinto dor. Aquele golpe, aparentemente cruel, não me desestabiliza como eu havia imaginado.

De repente percebo que todo aquele pânico tinha sido em vão. Apesar de difícil e dura, me espanto ao perceber que consigo absorver a realidade. Amasso o bilhete, jogo-o no lixo, enxugo o rosto e vou preparar o café da manhã. A vida continua.

Por Vanessa Olivier