quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Mudar Faz Parte



Quando alguma coisa sai do eixo, não tenha medo de buscar outra peça para o quebra-cabeça da sua vida. Os elementos podem mudar de posição ou perder a conexão com o  todo, e é você quem precisa fazer as alterações necessárias para que tudo volte a se encaixar. Por Vanessa Olivier


O que a palavra mudança provoca em você? Medo, euforia, esperança, alegria, tristeza ou será indiferença? Nunca, por exemplo, nos últimos tempos, o Brasil ouviu e repetiu tanto esse termo. Uma nação cansada de corrupção e falsas promessas, que clama por mudanças (boas, é claro), mas que ainda tem medo delas. Apostar no conhecido é sempre mais fácil do que no duvidoso, e acabamos sendo enreda- dos pelo conforto de nossa própria armadilha – nosso imaculado e quentinho universo particular.

Mas e quando aquele conhecido mundo já não nos faz felizes como antes? Será o momento de romper a casca que nos protege de nossos possíveis fracassos para nos permitir errar, tentando acertar? Só de pensar em mudar algo estável bate um certo desconforto. Esse sentimento é compartilhado por inúmeras pessoas e, provavelmente, por você também. Pense bem, em algum momento da sua vida você já sentiu algo assim: coração disparado, boca seca, corpo agitado e uma imensa vontade de sumir. Esses sintomas, apontados pela psicóloga e palestrante Meiry Kamia, de São Paulo, são reações corporais que ocorrem no presente movido por um sentimento do futuro – a ansiedade.

Segunda ela, é natural não gostar de mudanças, pois além de provocar sensações físicas desagradáveis, nos obrigada a aprender coisas novas, o que não nos agrada muito porque somos seres extremamente movidos a hábitos. “A rotina nos traz uma falsa sensação de segurança, a crença é: se executar as tarefas todos os dias da mesma forma, isso trará a sensação de que o resto está bem, chegaremos em casa seguros e garantimos mais um dia de vida”, explica Meiry, que também faz um alerta: “É uma crença falsa que nos aprisiona e não permite que possamos aprender e crescer”.


É esse o ponto: o nosso crescimento emocional e cognitivo depende de novas experiências. Assim, toda transformação exige o abandono daquilo que não nos serve mais, seja o que for. “A mudança derivada de um evento externo a nossa vontade é encarada como fato da vida, uma contingência do destino frente a qual nada podemos fazer. Há certa resignação com as mudanças provocadas por eventos alheios a nossa vontade”, pondera a psicóloga Angelita Scardua.


Segundo ela, essa percepção nos faz enxergar de maneiras diferentes as mudanças da vida que ocorrem alheias à nossa vontade daquelas que planejamos. “Essas últimas geram medo porque sabemos que estão em nossas mãos, desde    o princípio até a conclusão”. Sim porque quando escolhemos mudar, a responsabilidade de um possível fracasso é toda nossa, ao passo que as mudanças não planejadas nos colocam no papel de vítimas ou de sortudas. “Assim, tanto uma quanto outra pode ser percebida como sendo mais confortável emocionalmente do que a posição de responsável”, aposta.


No entanto, se alguma coisa em sua vida não está legal, sempre é tempo de mudar, como aponta uma das frases icônicas de Charles Chaplin: “Cada segundo é tempo para mudar tudo para sempre”. E o momento para essa reflexão não poderia ser melhor, já que, naturalmente, o fim de todo ano sempre vem acompanhado de um sentimento de renovação, pois o vemos como o encerramento de um ciclo. 

“Quando um ano termina, nos sentimos inclinados a fazer a ‘contabilidade’ do tempo vivido e, nessa hora, refletimos se investimos da melhor forma nossa energia, nossas horas, nosso dinheiro, nosso afeto. Ao mesmo tempo nos motiva   a pensar em como podemos contribuir mais e melhor para   a história que estamos escrevendo, ou seja, a vida que estamos levando. E muitos momentos, fazer mais e melhor exige mudanças, términos e recomeços”, diz Angelita.


HORA DE MUDAR


Ok, vamos admitir que você se sente incomodada com alguma coisa, mas não sabe bem o que fazer para reverter a situação, nem se é hora para tentar uma mudança e, muito menos, se realmente mudar é a chave para sua felicidade. Para o especialista em administração de tempo e produtividade Christian Barbosa, de São Paulo, essas dúvidas podem roubar um tempo precioso de nossa vida. E para que isso não aconteça com você, ele tem uma sugestão: “Sempre que tenho um impasse ou algo que está emperrado, eu paro para me perguntar, e não para pensar. Perguntas são as respostas”.

Mais precisamente, garante ele, seis delas podem ajudá-la a responder suas principais dúvidas: 

1 E se eu mudar e optar por esse novo rumo? O que pode acontecer de bom? O que pode acontecer de ruim? Tem mais vantagens ou desvantagens? 2 Alguém será prejudicado com essa minha decisão? É possível evitar ou minimizar o impacto? 3 O que me impede de tomar essa decisão? O que preciso fazer para vencer essas barreiras? 4 É ético? Honesto? Vou conseguir dormir à noite? 5 Minha família vai junto comigo? 6 Vai ajudar a realizar meus sonhos e objetivos?

Você pode até se fazer todas essas perguntas, mas saber reconhecer a hora certa da mudança não deve ser algo tão difícil assim, acredita a psicóloga Angelita Scardua. Segundo ela, nós já sabemos quando uma situação em nossa vida não nos serve mais. “Podemos até não querer admitir, mas sentimos quando algo ou alguém não acrescenta mais, não contribui mais, não importa mais”.

Angelita aponta que as emoções negativas, de todo o  tipo, são os primeiros sinais da necessidade de um recomeço. “Sentir raiva, medo, tristeza, insegurança etc, é uma maneira da mente alertar para a insatisfação”, garante. Além dos sinais de ansiedade citados no início desta reportagem, o corpo também encontra um meio de transbordar o descontentamento através de sintomas, como cansaço constante, mal-estar físico, falta de energia contínua, tensões acumuladas na musculatura, apetite excessivo ou falta dele, enxaquecas, insônia, e por aí vai.

“O mal-estar físico e emocional são sinais de que a vida pede novas direções que nos levem a diferentes caminhos dos quais temos percorrido. Eles incluem o desinteresse por algo que antes nos encantava, a indiferença frente a alguém que costumava despertar fortes emoções, a falta de motivação para fazer uma coisa que antes fazíamos entusiasmada- mente”, completa Angelita.

Ainda que você esteja enfrentando alguns desses sinto- mas, mas não tenha se convencido totalmente de que precisa agir, Christian Barbosa elaborou nove estágios que apontam quando alguém está apenas sobrevivendo, ou seja, que está vivendo uma vida que não quer. Talvez você possa se identificar com algum deles, ou com todos.


1.  SEGUNDA-FEIRA É UM MARTÍRIO quem acorda na segunda-feira imaginando que está indo para um velório, sem qualquer disposição de fazer acontecer, tem um dos sintomas clássicos da sobrevivência.


2.  RECLAMA SEM SABER O PORQUÊ tudo está chato? Tudo é um saco? Sem vontade de fazer muita coisa? Você “bufa” várias vezes por hora com aquelas coisas que aparecem no meio do seu dia? Se você está reclamando de tudo, a toda hora, para todo mundo, você está no caminho de se tornar uma walking dead (zumbi da vida).


3.  O DIA NÃO ACABA COM AQUELA VONTADE DE QUERO MAIS: sabe quando seu dia termina, você está tão cansada, esgotada e ainda tem um monte de trabalho paraser feito? Será que você sente aquele “tesão” de fazer um pouco mais, de tanto que gosta do que está fazendo ou não vê a hora de sair pela porta? (Eu não estou dizendo que é para fazer cansada, trabalhar mais, estou só perguntando se você tem vontade de fazer isso)


4. FAZ MAIS COISAS PESSOAIS NO TRABALHO QUE PROFISSIONAIS: você chega no trabalho, começa a tocar o dia, daqui a pouco vem uma preguiça e você passa a procurar coisas sobre seu TCC, faz um pouco do seu trabalho extra, procura algo da sua próxima viagem etc. Fazer coisas pessoais durante o trabalho não tem problema, se forem no tempo certo e no tamanho do bom senso. Agora, quando toda hora você foge para o pessoal, certamente, tem algo errado. 


5.      VE PROCURANDO OUTRAS OPORTUNIDADES DE EMPREGO: VOCÊ SEMPRE ACESSA SITES DE EMPREGO PARA MANDAR SEU CURRÍCULO E BUSCAR OUTRAS OPORTUNIDADES? Esse é outro sintoma de que algo está errado com a oportunidade atual. Querer melhorar é natural do ser humano, mas será que você tem um foco específico para isso ou está aleatoriamente buscando algo diferente.


6.  SEM TEMPO PESSOAL DE QUALIDADE: há quanto tempo você não faz algo, realmente, de qualidade para você mesma? Seu tempo pessoal é prioridade ou é raridade? Pessoas que sobrevivem não conseguem encaixar muito prazer na agenda, são apenas levadas pelo grupo   em eventos sociais, mas algo que goste de verdade fica em segundo plano.


7.  SENSAÇÃO DE QUE ESTÁ FALTANDO ALGO: pessoas que estão sobrevivendo, vivem com a sensação de que precisam fazer algo diferente, mudar a vida, dar a guinada, fazer sucesso de verdade. É um pensamento que vai e volta constantemente, mas sem muitas respostas práticas.


8.  AUSÊNCIA DE DESAFIOS: quem não tem um grande desafio na sua vida, algo que realmente motive de verdade, acaba entrando nesse ciclo de sobrevivência. Esse objetivo pode ser algo profissional como um novo projeto, uma meta desafiadora, ou algo pessoal como um curso, uma certificação, um empreendimento etc.


9.  FOCO NO PRESENTE, FUTURO INCERTO: muitas pessoas só conseguem enxergar o hoje e nem querem imaginar o que será amanhã. Vivem o presente até ele se esgotar, sem criar um futuro que permita uma vida plena. A rotina está tão no automático que essa construção do amanhã não é muito levada em consideração.



A HORA É AGORA


Se você já tem certeza de que precisa mudar, o próximo passo é agir. “Para o bem e para o mal, é somente promovendo mudanças, de forma deliberada e consciente, que aprendemos que somos capazes de influenciar os rumos da própria vida”, aponta a psicóloga Angelita Scardua. A partir do momento em que realizamos a primeira mudança de uma situação incômoda, automaticamente, nos sentimos mais fortes, descobrimos as nossas reais capacidades e, principalmente, entendemos (de uma vez por todas) que, se não houver uma ação, também não haverá uma reação, além do fato de que “os céus não caem sobre nossas cabeças só por- que mudamos de direção”, acrescenta Angelita.


Ao aprender a conduzir os caminhos da nossa vida só temos a ganhar, já que somos desafiadas a nos readaptarmos, a modificar hábitos, crenças e valores. “Podemos encontrar diferentes e novas maneiras de vermos o mundo e a nós mesmas”, aposta a psicóloga, que também faz uma ligação entre esses ganhos e o desapego. “Quando desapegamos, criamos espaço em nossa mente e em nossa vida para coisas novas. Mesmo que não falemos sobre isso, no fundo, sabemos que viver melhor exige que tenhamos a disposição para mudar algumas coisas, seja hábitos alimentares ou a maneira com que tratamos nosso companheiro, por exemplo”.


Então, se você quer mudar sua vida em 2015 (seja uma parte ou tudo) precisa aprender a ser uma pessoa um pouco diferente da que foi em 2014. “Essa deve ser a única e real resolução de fim de ano: mudar! Afinal, a palavra ‘resolução’ tem vários significados, como firmeza, energia em face do perigo, coragem, decisão, ato ou efeito de resolver--se, fluxo etc”.


Está pronta? Então atente-se às dicas da profissional e tenha um novo ano diferente e muito mais feliz:


Exercite a     curiosidade


Procure fazer e experimentar coisas novas. Alterne o caminho do trabalho, comece uma atividade física que nunca fez antes, exercite o paladar e o olfato com aromas e comidas que são estranhas para você. Viaje para lugares que não conhece, vá a recantos de sua cidade que não costuma ir. Converse com pessoas diferentes de você, que tenham outra religião, idade, origem cultural e econômica. Abra sua mente para o desconhecido. Isso nos ajuda a repensar o mundo e a nós mesmas, nos fornece novas perspectivas sobre a vida e nos coloca em contato com outras formas de viver.


Desapegue


Faça uma faxina na casa, no local de trabalho e na mente. Se alguma coisa não é mais útil ou gera muito mais emo- ções negativas do que positivas – seja um objeto, crença ou convicção, lembrança, atividade ou até mesmo uma relação amorosa –, deixe para trás. Insistir em manter algo que apenas faz volume ou é um peso na vida, nos imobiliza emocionalmente, gerando culpa e frustração. Enquanto mantemos algo que não contribui para a vida que queremos viver, estamos ocupando o espaço que poderia ser dado a algo que poderia nos ajudar a nos aproximarmos da vida que almejamos.


Planeje


Seja qual for o seu plano para 2015, trace metas. Desmembre o objetivo final em várias etapas – com prazos e métodos viáveis – a serem cumpridas progressivamente para atingi-lo. Avalie suas expectativas e os recursos que você já tem e os que precisa ter para alcançar suas metas. Não adianta planejar o que não se pode alcançar, seja por características pessoais ou pelas condições ambientais. Por exemplo, se você quer emagrecer 12 quilos, não adianta estabelecer a meta de chegar ao peso ideal em um mês. É importante entender que o emagrecimento, para ser saudável e efetivo, deve ser encarado como resultado de uma mudança de hábitos, desde alimenta- res até de rotina de atividades.


Busque o equilíbrio


Não encare o ano vindouro como a única chance para atingir esta ou aquela meta, e sim como a oportunidade para começar pequenas mudanças que, juntas, resultarão em uma transformação mais profunda. Isso significa não canalizar todos os esforços em uma única direção. Nenhuma meta deve ser a sua vida. Uma boa vida deve ser diversa, ter espaço para a família, o trabalho, o lazer, a vida afetiva, o autocuidado, a espiritualidade, os amigos. Se para realizar um objetivo tiver de negligenciar várias outras áreas da vida, dificilmente essa conquista, por maior que seja, compensará o que se deixou de viver. Lembre-se, neste ou no ano que se iniciará, a única vida que você tem de verdade é esta que está vivendo. Tente vivê-la da melhor forma possível.


Reportagem publicada na Revista Madame Brasil (2014)


terça-feira, 26 de novembro de 2019

Amor de Navalha




Há tempos, o amor parecia uma pluma de algodão
Leve, faceiro, com seu corpo roliço, macio,
Enxugando lágrimas, afagando sorrisos, 
embrulhando sonhos.
Mas agora o amor é como uma lâmina
Seca, apática, com sua densidade gélida 
e seus dentes agudos,
Desferindo golpes ríspidos, retalhando, sem freios,
as veias pulsantes de meu coração. 
Não há como parar a dor
Se a navalha ainda está lá,
Ferindo o amor de pluma
Que existia feliz, dentro de mim. 
Meu coração hoje sofre, 
Só que as lágrimas estão por dentro
Porque não sei escancarar a dor.
Se hoje eu sofro, se meu amor agoniza,
Se o sangue verte sem viço de minhas veias, 
Se eu me calo, mesmo estando as palavras a gritar
Dentro de mim, é dentro de mim que se fará o estardalhaço
Por fora, apenas o silêncio,
Um sorriso triste, lágrimas dançando na soleira da retina,
E a vida seguindo seu curso, 
Você sendo feliz, longe de mim.

Por Vanessa Olivier

sábado, 21 de setembro de 2019

Perder é ganhar















Se perder é um infortúnio, eu sou discrepância,
Pois pode até haver ganho sem perda,
Mas, nunca, perda sem ganho.
Eu perdi o aconchego do útero,
Mas ganhei o mundo.
Perdi o colo familiar,
Mas ganhei independência.
Perdi gente e bichos que amava,
Mas ganhei força, aquele aprendizado que só recebemos com a dor.
Perdi quilos, ganhei autoestima.
Perdi dinheiro, mas ganhei determinação para conseguir outro,
Perdi horas de sono, ganhei a satisfação do dever cumprido, do sonho alcançado.
Perdi medos, o desejo pelo inalcançável, a impaciência.
Perdi a juventude, ganhei maturidade.
Perdi anseios tolos, inseguranças, preconceitos.
Perdi o amor de alguém, mas ganhei o amor-próprio.
Perdi esperanças, e ganhei autoconhecimento.
Perdi empregos, ganhei novas oportunidades.
Perdi amizades, ganhei aprendizados.
Perdi a falta de compaixão, a apatia, a incompreensão.
Diversas vezes perdi a hora, o caminho, o fio da meada,
E ganhei uma segunda, terceira, quarta ... muitas chances
Mas continuo perdendo, a cada segundo, um pouco da vida
E a cada segundo, a vida me presenteia.
No fim das contas, perder sempre será igual a ganhar.
Perca, ganhe, viva!

Por Vanessa Olivier

Floresça



Aos poucos, o frio recolhe suas mantas de gelo,
E eu não sinto mais o vento seco me envolver
Com suas ásperas camadas frígidas.
Há uma sensação de conforto no ar,’
Um sopro quente, mas tíbio abraçando minha pele,
Um aroma sereno de flores recém-nascidas,
Plantas brotando vivazes da terra, folhas se regenerando,
O sol reinando plácido dentro do seu reduto febril.
Dentro de mim, sinto algo vibrando
É um retumbar semelhante ao timbre maciço de uma cigarra
E logo sei da verdade:
Podemos não perceber, mas, no fundo, somos como a primavera.
Sempre é tempo de restaurar o que é bom,
Fazer renascer a vida dentro de nós,
Espantar o frio, abrigar o calor,
E florescer.

Por Vanessa Olivier

terça-feira, 28 de maio de 2019

Marcas da vida


Um dia, sentada em frente ao espelho, percebeu que uma linha fina se formava entre suas sobrancelhas delineadas todas as vezes em que ela franzia a testa. Notou que a linha ficava um pouco mais suave quando ela relaxava o rosto. Era a primeira ruga que havia observado em seu semblante jovem e plácido. Mas, a partir daquele momento, sua serenidade se desviou numa curva que não deixa marcas visíveis.
Foi naquele dia que ela descobriu algo evidente, porém, inimaginável. Se aquela expressão marcava seu rosto com uma linha fina visível, que se tornaria cada vez mais profunda com o passar do tempo, deixar de fazê-la poderia ser a chave para retardar ou até mesmo evitar uma ruga profunda. Então ela passou a se policiar para não mais franzir a testa até que aquele comportamento incomum se tornou um hábito.
Toda vez que ela se espantava com algo, se irritava ou quando tentava enxergar por entre a luz radiante do sol, simplesmente respirava fundo e, calmamente, balbuciava: “O que?”. No caso da luz do sol, apenas evitava que seus olhos fossem ao encontro dela. E assim, a ausência dessa expressão em seu rosto deu lugar para outras, pois ela percebeu que poderia evitar mais sinais na pele caso deixasse de sorrir, chorar, gargalhar, gritar e assim por diante. “É tão simples evitar as rugas”, pensava ela.
Mas ao longo dos seus dias, acontecimentos inevitáveis tornavam seu propósito cada vez mais difícil. Era praticamente impossível não chorar toda vez que seu coração era partido por um homem, ou não rir quando saía para se divertir com as amigas, ou não se irritar ou se estressar quando alguma coisa dava errado no trabalho. Manter o semblante sereno estava ficando cada vez mais difícil diante dos acontecimentos corriqueiros do dia a dia. Com isso, outros sinais indesejáveis começavam a ser notados em seu belo rosto.
Diante do espelho, ela analisava todas as linhas que se formavam com cada expressão. Uma espécie de pânico começou a se formar bem no meio de seu estômago, como um redemoinho de emoções pronto para sugá-la para dentro de si mesma. As lágrimas explodiam descontroladas por sua face e, na sua mórbida insensatez, tomou uma decisão perigosa. A partir daquele dia, não mais sairia com as amigas, não conheceria outros homens, assistiria apenas a filmes que não a fizessem chorar ou gargalhar, deixaria de tomar sol, e mudaria de emprego, algo que fosse mais tranquilo, mesmo que pagasse infinitamente menos.
Assim foi. Com o passar do tempo, os convites das amigas se findaram, o trabalho passou a ser uma rotina demasiadamente tediosa, seus dias de flerte ficaram para trás e, o sol, guardado por trás das cortinas de sua casa. Finalmente, ela seguia firme no seu propósito, mantendo um rosto sempre sereno, com pouquíssimas linhas de expressão.
Anos depois, em frente ao espelho, notou que as linhas em seu rosto continuavam muito suaves e se alegrou muito com isso, mas sem deixar que uma expressão de felicidade atravessasse seu semblante. Ela estava conseguindo atingir seu objetivo, não aparentava, nem longe, a idade que tinha. Seu rosto continuava bonito, sua pele, lisa. Entretanto, depois de alguns longos minutos observando a própria aparência, percebeu algo novo que quase roubou o ar de seus pulmões, deixando-a perplexa.
Diante do espelho estava uma mulher de 59 anos, cabelos escuros e sedosos que caiam ondulados por seus ombros eretos, pele clara sem sinais de rugas mais proeminentes, apenas algumas linhas finíssimas que até lhe davam um ar ainda mais elegante, lábios levemente cheios, hidratados e roseados, contornos ainda suaves e surpreendentemente sólidos. Era, sem dúvida, uma bela mulher. Mas o que a espantou foi algo tão gritante e que, de forma incompreensiva, havia passado batido por suas análises anteriores.
Os olhos dela, redondos, delineados por um lápis fino e adornados por longos e curvados cílios, não exibiam olheiras por baixo deles, tão pouco, bolsas, apenas alguns traços imperceptíveis dos anos passados. A cor das íris eram castanhas, as pálpebras continuavam rijas e aparentes, mas não foi nada disso que havia chamado sua atenção. Algo neles a encheu de pavor e tudo o que havia feito desde então para evitar as temidas rugas parecia desmoronar diante de si. Um mundo desprovido de sensações, uma vida que não foi vivida.
O rosto bonito e jovem que lhe encarava de volta no espelho não era dela. Aqueles não eram seus olhos, a mulher diante de si não era ela. Sem se dar conta, ela havia se transformado em um ser desprovido de humanidade, era como um andrógeno ou um alienígena. Seus olhos castanhos não tinham brilho, eram como dois botões irrelevantes de uma blusa. Sua pele, embora ainda um pouco fresca, não havia luminosidade, era como a borracha usada para construir uma boneca barata. Ela era uma imitação patética de um ser humano.
De repente, o redemoinho, que quase rasgou seu estômago anos atrás quando decidiu evitar qualquer emoção mais forte capaz de transparecer em seu rosto, tornou a fervilhar dentro dela. Era como se tudo o que deixou de viver, cada lágrima, cada riso, cada suspiro, cada grito ganhasse vida própria e se aboletasse na boca de seu estômago. Naquele momento, ela teve certeza absoluta de que iria explodir. Mas não explodiu.
Em vez disso, perdeu os sentidos e seu corpo forte caiu amolecido sobre o piso frio. Quando recobrou a consciência, levantou-se com dificuldade sentindo que as pernas pareciam ter o dobro do peso de antes. Sentou-se novamente em sua banqueta, em frente ao espelho, e quando levantou os olhos para encarar seu reflexo, ficou ainda mais estarrecida. O rosto que lhe encarava de volta realmente pertencia a uma mulher de 59 anos, e cada ano vivido estava estampado, de alguma forma, em sua pele, agora marcada.
Atônita, compreendeu imediatamente o que havia acontecido. E estranhamente, de algum modo, pareceu ficar satisfeita. Ela, então, permitiu-se a sorrir. A partir daquele momento decidiu que nunca mais se privaria. Doesse a quem doer!

Vanessa Olivier
   


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Pitada felina


Minha felinidade cola com a sua ...
Por hora, voltada para dentro de mim,
No aconchego de minhas próprias apreciações.
Mas, em outras horas,
À procura de recantos externos ...
Uma fagulha explosiva de devoção,
Uma centelha abundante de estima,
Uma pitada, mas só uma pitada,
De amor, incandescente amor!  

Vanessa Olivier

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Fique!



O reflexo no espelho foi impiedoso
Busquei na lâmina fria uma ponta de sutileza
Na linha fina que faz sombra aos cílios longos,
No contorno preeminente às quinas dos lábios esguios,
Na saliência bugosa sob os olhos escuros.
Mas no silêncio do espanto se fez uma resposta
Assustadoramente diáfana,
O peito gorgolejando pontadas doridas,
E insensata, resfoleguei, praguejando os ponteiros
De um tempo que me escapou,
Escorregadio, apático dos meus desejos,
E deixando uma saudade vulgar, quase tola
Dos áureos dias de coração bucólico,
Uma pele tenra de quem ainda há esquinas,
Ruas, estradas, planícies, horizontes imaculados.
Mas a saudade arteira me encara no espelho,
Os olhos se arregalam, a boca se retrai em ultraje
A convicção das rugas, inusitadamente,
Pisca-me um olho, e a resposta é clara:
Seja o ontem, o hoje e o amanhã.
Saudade, pode ficar, não ligo!

Vanessa Olivier

Imperfeita perfeição

Uma lágrima dos meus olhos caiu
Juntou-se às águas do mar
Numa onda de lamentos acertando meu rosto
Sal, saliva, líquido jorrando vida
Diluindo tristezas, lavando meu pranto cansado
Incansável afluência,
Natureza de profusão.
De repente me vi ao meio
Dor, alegria, uma partilha desatinada
Ora íntegra.
Mar, criatura, fundindo-se em comunhão,
Como deve ser,
Natural, natureza,
Imperfeita perfeição, como é,
Como deve ser ...

Vanessa Olivier



sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Um amor ao meio


Inconsciente, inconsequente
Sigo buscando seu rastro
Num caminho feito de meias palavras,
Meias verdades, meia luz,
Onde o tudo já não existe, 
Só o meio, partido ao meio
Um coração dividido
Uma dor compartilhada
Uma lágrima apenas ...
Um Meio sorriso
É só o que me resta de ti

Vanessa Olivier



sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Inteira

Eu me despedaço porque não sei ser apenas metade de mim
Depois me refaço porque não sei viver solta ao vento 
Talvez um dia eu viva
Respire
E me entregue inteira
Sem que meus cacos se espalhem ao acaso
Pois só assim poderei ser livre
Talvez ...